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A sociedade actual tudo faz para justificar a sua organização

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 12.05.09

A ver se consigo transmitir aqui a ideia que me ocorreu hoje: a sociedade actual e as suas justificações, a sua lógica, para manter a sua organização.

Esta ideia ocorreu-me ao acompanhar, embora a alguma distância mental e emocional, as notícias, comentários, perspectivas, estratégias políticas, sobre um bairro de Setúbal ironicamente chamado Bairro da Bela Vista. Há até um lado perverso na escolha de nomes de bairros sociais.

A sociedade actual e a sua preocupação com a violência, mas apenas quando a violência é visível, em campo aberto, impossível de camuflar ou controlar.

Mas é de outra violência, muito mais intensa, dorida, limitativa, perversa até, de que D. Manuel Martins veio falar, de forma simples, clara e directa. É de uma violência que serve a lógica da linguagem do poder. A lógica que mantém os desequilíbrios sociais, não apenas na distribuição de recursos, mas também no acesso a formas de participação e pertença (isto tudo para fugir aos termos oportunidades, inclusão e integração social). E ainda no acesso à Justiça, pois claro. Quem é que vemos nas prisões? Os grandes crimes financeiros? No way! As grandes negligências políticas e profissionais? Not even one! E no entanto, estes integrados socialmente, incluídos socialmente, até admirados e elogiados socialmente, prejudicam muito mais e de forma mais profunda a própria sociedade no seu todo.

D. Manuel, segundo li recentemente, visita os presos regularmente. Mantém-se activo, mais de dez anos depois de ter voltado ao seu norte original. Dirige uma fundação filantrópica, é ele quem distribui os donativos generosos, mas de forma pedagógica, segundo percebi: promovendo a autonomia de quem ajuda.

A minha Igreja é esta, já o disse aqui noutro lugar: a de João XXIII. A que ainda vejo em D. Manuel Martins e também em D. Januário Torgal Ferreira e D. Carlos Azevedo.

D. Manuel não precisa da aprovação social e, segundo também tenho observado, nunca se guiou por essa bússula volúvel. O que o guia é certamente de outra natureza e é interior: a sua consciência, onde habitam valores, princípios, prioridades.

É esta a minha Igreja: a irmandade universal, a noção primeira e última que somos únicos, com um valor intrínseco, e todos temos, por isso mesmo, o direito de existir, viver e colaborar na comunidade.

Claro está que termos como irmandade universal ou bem comum soam risíveis à esquerda e à direita. Soam a New Age, hippies, ou bem pior, a teorias manhosas de pobres de espírito. Well, envergonham-me mais os termos que a sociedade actual utiliza por dá cá aquela palha ou sempre que lhe convém: oportunidades, inclusão social, integração social. Essas é que me arrepiam.

Se considerássemos todos os indivíduos de uma dada sociedade de igual forma, teríamos a necessidade de utilizar termos como inclusão e integração? Começa por aí! E quando se trata de os incluir e integrar, quais as soluções que engendra? Soluções que mantêm a dependência estatal ou a mendicidade perante organizações filantrópicas.

E dá sinais contraditórios, ainda por cima: lembram-se de muitos pequenos comércios de subsistência que a ASAE resolveu perseguir? E de uma tal economia paralela de subsistência, também perseguida nas feiras e mercados? 

Mas não é melhor, para todos, numa dada sociedade, que as pessoas se mantenham autónomas, com o seu engenho e arte, do que dependentes de subsídios? Não é mais digno trabalhar?

Outros sinais contraditórios: o que tem sido promovido socialmente? Não é o enriquecimento rápido? A aquisição de bens supérfluos? A promoção publicitária dos ricos e famosos como a nossa marca identitária? A promoção de produtos culturais de fraca qualidade, na televisão sobretudo? A informação ficcionada? Telenovelas com personagens de estrutura psicológica e formação  moral mais do que duvidosas?

E o que vê quem está fora da tal designação incluído ou integrado socialmente, porque está desempregado, porque lhe fecharam o tasco, porque nem sequer ainda conseguiu um primeiro emprego, nem mesmo precário com recibos verdes, porque a reforma não lhe dá para os medicamentos, nem para se manter no lar? Vê, mesmo à frente do nariz porque lhe entra pela casa dentro: os magos financeiros manhosos a manter-se na crista da onda, os políticos que trocam favores e influências a manter-se a navegar, os gestores do poder incompetentes e negligentes a manter-se à tona de água, e tudo entre sorrisos e abraços, os VIP's do costume.

Bem, quem ainda estiver a ler este post provavelmente interroga-se: E então a violência urbana justifica-se?

Não. Nenhum tipo de violência é justificável. (Bem, a não ser, em legítima defesa, mas isso já é mais complexo). 

Por isso comecei por referir que esta violência pode ser, em parte, a resposta a uma violência social, a negligência e indiferença social, a hipocrisia e cinismo social. Em parte é certamente.

A mesma sociedade que agora se indigna com a violência é a mesma que corta as asas a quem quer fazer alguma coisa digna da sua vida.

A mesma sociedade que agora se escandaliza com a violência é a mesma que promove os chico-espertismo financeiro e político.

A mesma sociedade que agora tem achaques com a violência é a mesma que utiliza uma linguagem verbal violenta.

Não. Nenhum tipo de violência é justificável. É por isso que uma sociedade saudável não permite nenhuma das suas formas: verbal, física, moral.

Como disse recentemente o Dalai Lama: compaixão com a pessoa, não com os seus actos.

Também Arno Gruen defende que não se trata de apagar, deletar, os erros e desculpabilizar tudo: a dignidade recupera-se com a compensação possível, aos lesados, pelos erros cometidos.

Ora, isto aplica-se a todos, a todos sem excepção. E by the way não será mais responsável o que está no topo da pirâmide do poder, o que tem mais influência social? Afinal de contas, um elefante não incomoda muito mais gente do que uma simples formiga? (Isto pegando no Harry Lime d' O Terceiro Homem)...

 

 

E daqui, um post de fôlego de José Adelino Maltez, um historiador da política e analista das nossas narrativas ocultas: Conjugando o abraço armilar, ao ritmo da heresia, contra o intervencionismo do estadão maizena.

 

 

Alguns dias depois: descobri este post n' A Barriga de um Arquitecto!

 

 

 

publicado às 07:55


5 comentários

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De Isabel Metello a 16.05.2009 às 23:52

Só para deixar um abraço e informá-la de que o http://oeirasecoshoppinglovingcenter.blogspot.com/está a crescer...
Abraço,

Isabel
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 18.05.2009 às 11:07

Que surpresa, Isabel!
Tenho acompanhado o "eco shopping loving center" com muita curiosidade.
E espero voltar a trocar ideias consigo em breve!
Beijinhos! Ana
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De mdosoll@live.com a 19.05.2009 às 23:14

Como gostei de ler o seu texto. Além do conteúdo importante é um texto sereno. Ao lê-lo aprendi calmamente. Obrigada!
:))
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De mdosoll@live.com a 20.05.2009 às 22:06

Vejo que o meu comentário (acho que tentei deixá-lo ontem) nã chegou. Por certo erro meu oou distração. Já não sei reproduzi-lo. Sei que dizia que gostei do seu texto sereno e que me fez bem lê-lo.
:))
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De Ana Gabriela A. S. Fernandes a 21.05.2009 às 19:16

Peço desculpa, mdosol! O atraso foi meu!
Só hoje o descobri!
Eu é que lhe agradeço a troca de ideias e a luminosidade desse sol que a acompanha!
Gostei de saber que vê serenidade no texto. É sinal que a idade também me trouxe a paciência necessária para perceber o mundo.
Um grande abraço! Ana

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